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Perfeitos desconhecidos I

- E como nos identificamos? - assim alcançamos a derradeira decisão.

A comunicação entre mim e Duarte tem sido realizada por mensagens sui generis, repletas em malícia e humor. Conhecemos muito pouco de cada um, até porque os interesses não passam pela individualidade e muito menos pela banalidade. Pelo contrário, desde o primeiro vislumbre de uma fotografia e comentário original, a intenção é o enigma e glamour.

Ainda elevamos a fasquia da ousadia na resposta á questão. Sugiro uma foto de oferta, assim identificarei procurando a mão com a imagem. Se nos anteciparmos e esperarmos por quem não conhecemos, peço a Duarte que me ofereça a imagem sensual por ele fotografada, surpreendendo-me. Ele contesta, quer algo mais. Quer um beijo quente! Assim, sem demoras e sem apresentações. Quer me diferenciar pela audácia.

Reconhecemos ser esta a aventura procurada. Poucas mais expectativas queremos alimentar! Partir em viagem em busca de desconhecidos. Ir ao encontro do dono do discurso humorístico muito cativante e esperar partilhar a gargalhada ao vivo. Sem mais pelo que ansiar, é apenas uma fuga á rotina. Novos amigos, nova viagem, novos sorrisos para preencher um novo fim-de-semana.
Em pleno Verão, decidimos usufruir de uma tarde de sábado, na praia, com pretensão de prolongamento se assim o desejarmos. Escolhemos uma praia naturista na zona centro, ambos os casais adeptos fervorosos da pratica.

Trocamos contactos mas fazemos questão de apenas nos ouvir e ver em simultâneo. A voz é um detalhe que pretendemos deixar no enigma. O tom, o vocabulário, o respirar de alguém faz parte do seu ser e desejamos conhecermo-nos em uníssono. Apenas as letras nos levam.

Apenas sei que Catarina trás um vestido veranil, tal como eu. Assim que saímos do carro tentamos percorrer a paisagem numa tentativa célere de os encontrar. Estão alguns veraneantes a usufruir do calor, mas outros já abandonam a praia. Desta vez eu estou mais empolgada do que o mais que tudo. Nesta altura, ouço-o resmungar para que use o contacto e termine logo a ansiedade. Não cedo. Em direcção ao passadiço sobre as dunas, reparamos na casa de gelados. Está colocada estrategicamente ora para quem passa, ora para quem vai para a praia. Por trás do cartaz dos gelados está um casal. Só lhes contemplamos os membros inferiores mas depressa adivinho Duarte. Vislumbro a máquina a tiracolo. Procuro as mãos e encontro o sinal.

Aproximamo-nos lentamente, pois convém que o encontro não seja em frente ao comerciante de gelados. Deparamo-nos os quatro na lateral do quiosque de verão. Assim que nos olhamos, todos sorrimos. Ao cruzar o meu olhar com Duarte, olhos castanhos mel, cheios de doçura e malícia, decido neste exacto instante transpor a minha petulância, esquecer a timidez e ceder ao pedido de Duarte. Beijo-o no momento em que ele pretendia oferecer-me o retrato que trazia na mão. Um beijo doce que rapidamente ferve e incendeia.

Catarina e o meu companheiro riem e aproximam-se para se cumprimentarem. Corada, recomponho-me e finalmente pronuncio o primeiro: - Olá!

Fico com a percepção de ser observada por estranhos mas não valorizo. Seguidamente, também nós compramos um gelado para acompanhar a primeira conversa que se inicia durante o passeio até á praia.

O sorriso de Catarina é encantador e de uma alegria contagiante. Terá sido pelo arrojo inicial ou não, revela-se mais extrovertida do que previa. As conversas fluem com muita malícia agora entre todos. Os gelados são apenas o mote inicial. Entretanto Duarte tem um olhar que me magnetiza, apesar de já o ter imaginado milésimas vezes. Assim, se desenvolve uma afinidade crescente durante toda a tarde. A naturalidade do nudismo apenas fomenta a intimidade.
As curvas de Catarina são arte. A pose de Duarte disfarça a timidez inicial, tal como eu que volto a corar por breves instantes. Usufruímos assim de um excelente por do sol, repleto de risadas e de muita brincadeira. A perversidade está muito camuflada, apenas se revela em momentos como quando Duarte pede para me proteger a pele com o creme protector. Catarina diz que também precisa e oferece o seu corpo ao meu lado, para o meu companheiro prevalecer e até atrever um pouco por todo o seu corpo. Todos os momentos são desfrutados de sorriso no rosto e sonoras gargalhadas. Inclusive o beijo roubado a Catarina num impulso. Simultâneamente são refrescados por uma onda que torna a imagem dos dois extraordinariamente erótica. Eu e Duarte contagiamo-nos e repetimos a imagem de frente aos dois e ao por do sol.

A hora de jantar refreia um pouco a libido que está a despertar. Decidimos apenas continuar a brincar e trocamos as companhias habituais no carro a caminho do local escolhido.

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