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Unicórnio domado I

Escolhi chegar mais cedo, com o desejo de que o tempo de espera abrandasse a inquietude interna. Sentei-me num dos bancos, do lado menos movimentado da estação. A intenção era manter-me em discrição, apenas observar. Queria-a admirar de longe, quando chegasse. Queria-a ver procurar-me com o olhar. Imaginava o quanto estaria ela ansiosa na longa viagem. Seria o desejo dela por este encontro tão desmedido como o meu?

Fiquei novamente com a sensação de estar a viver no limbo. Esse mesmo sentimento a causa do nosso primeiro arrufo e afastamento precoce. Mania da desconfiança!

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Fez mais de um par de anos desde que conversamos, continuadamente durante um mês, num chat, até nos voltarmos a cruzar no mundo cibernético. Não foram as fotos que me cativaram pois ela não tinha as curvas desnorteadoras e as poses não eram carregadas de sensualidade. Foi uma simples mini t-shirt, estampada com um dos meus desenhos animados preferidos, o mote do primeiro tema. Surpreendi-a logo aí. Ela deixou-se conhecer lentamente e sem filtros, devolveu-me a curiosidade.

Susy, não era a jovem imatura representada nas fotos. Pouco mais de 30, educada por raízes conservadoras, era independente e sozinha por opção. Professora num colégio privado ninguém concerteza imaginava a loucura naquela mente. Por trás do monitor foi muito fácil confessar os seus desejos e fantasias misturados com outros temas banais. Esta mesma loucura seduziu-me em pouquíssimos dias. Surpreendentemente era recíproco. Também ela admitia não ficar assim tão entusiasmada por alguém em pouco tempo. Foi sol de pouca dura...o meu cepticismo foi mais forte. Sem vontade de acrescentar novas quimeras ao imaginário, a determinada altura ataquei-a, chamando-a de falsa. Quis acreditar que do outro lado estaria apenas um homem frustrado a brincar e sendo ela tão segura de si, ensinou-me a fábula das uvas verdes e da raposa de La Fontaine.

Dois anos depois, numa outra plataforma, ela encontrou-me. Uma tertúlia sobre uma qualquer banalidade, eu era parte activa e isso fez com que me enviasse uma mensagem. Não se apresentou e eu não soube quem ela era até se identificar, ao fim de algumas mensagens trocadas durante uma semana. Foi como se ela me quisesse conhecer de outra forma, noutro ritmo. No entanto, rapidamente voltamos ao frenesim anterior. Dessa vez, foram três meses acumulados por milhentas conversas, muita imaginação, muitas expectativas, muita tesão, em que apenas a distância não permitia atenuar. A determinada altura falávamos em agendar um encontro a longo prazo mas, ela sem muito planear, desafia-me:

"Para a semana tenho a pausa do Carnaval, podia ir nesse fim de semana, ou melhor, eu vou aí!"

Desta vez não hesitei. Agarrei a oportunidade e apenas respondi : "Quero, Anda!"

Ouço o som nos carris a aproximar-se e olho o relógio a confirmar a pontualidade. A esta hora, o dia já acordou em pleno e há mais azáfama de pessoas em redor,  no entanto soube exactamente quem ela era assim que colocou um pé na plataforma de saída. O botim preto de salto prateado combina perfeitamente com a saia cinza comprida e plissada. De pé, de costas para os carris enquanto me procura, aprecio-a um pouco mais: Agasalhada com um casaco de cabedal preto por cima de uma  blusa transparente, também preta e abotoada até ao colarinho delicado. Decido me levantar para a auxiliar no reconhecimento, a altura acrescida pelos saltos ou o meu casaco felpudo, denunciaram-me no mesmo instante. Ela sorriu discretamente e caminhou na minha direcção seguida pela mala de rodas.

A timidez aparente dissipou-se num abraço apertado. Nesse interim sussurra-me: - "Não imaginas o quanto desejei este abraço, o quanto desejei que fosses real!" - Senti o seu batimento cardíaco acelerado enquanto inspirava paulatinamente para se acalmar. Confirmei assim o pensamento que me assolou mais cedo - Ela queria mais do que eu!

Retirei as mãos dela, por cima dos meus ombros, e segurei-as cruzadas sob o colo. Sorri-lhe, olhámo-nos mutuamente e eu sugiro um bom pequeno almoço. Insitei-a a contar-me tudo o que lhe passou na mente durante as longas horas da viagem (algo que a proibi fazer, logo ao acordar, numa SMS minimalista). Ela perdeu um pouco a expressão alegre. Ficou surpresa com a sugestão pois pensava que iríamos para casa. Pedi-lhe para refrear a ansiedade, prometi-lhe as próximas 72 horas muito intensas mas ao meu ritmo.

Escolhi um cantinho, para uma primeira conversa, bem ao fundo de uma padaria inundada pelos odores matinais característicos, sem receios de sermos interrompidas. O êxtase das duas era bem cúmplice e visível apenas no olhar, inicialmente. Queríamos ambas avançar na conversa circunstancial mas a sedução era imperativa. Subtilmente a marcar a posição, fui eu que escolhi o que ela iria comer. Sorrindo, ela disse ter percebido a atitude e agradou-lhe muito. Em pequenos gestos como estes o jogo foi continuando.

Falámos e relembramos toda a nossa historia e o motivo do encontro. Sem o palavreado explicito mas carregado de intenções, o desejo foi assim confirmado, lentamente. A determinada altura ela colocou a mão sobre as minhas justas leggings de napa preta. Deixei-a ficar assim por uns momentos até que quando subiu um pouco acima do joelho, sapateie-a a reprovar o avanço. Ficamos em silêncio a rir, novamente entre olhares, ambas sabíamos como nos estávamos a incendiar. Ela baixa o olhar e pede desculpa o que me fez contrair o ventre. Suspirei e com a mente a mil, num ímpeto, lembrei de uma peripécia:

- Como já terminámos o pequeno-almoço, eu vou pedir a conta e tu vais ao WC. Refresca-te e espera pois serei eu a dizer-te quando poderás sair!

Ela sorriu-me e sem alguma resposta ou questão, levantou-se lentamente  e desceu as escadas ali perto, com toda a elegância. Fiquei radiante com esta brincadeira. Desloquei-me ao balcão para antecipar o pagamento e pedi ao empregado que olhasse só um pouco a mala. Desci paulatinamente cada degrau pois não queria que o som do tacão na madeira fosse muito audível. Enquanto o fazia aplaudia-me por esta ideia. Não me tinha ocorrido anteriormente mas o local do WC era excelente, super  reservado.

Quando atingi o patamar não a vi. Ainda estava lá dentro. Bati à porta e pedi para abrir. Assim o fez. Entrei e fechei a porta para logo de seguida a encostar sobre a parede e de olhar penetrante aproximar-me da boca dela para a arrebatar um primeiro beijo longo e quente. Assim que conseguimos descolar as bocas, ela ia falar algo mas não deixei, colocando-lhe um dedo sobre os lábios ainda com o baton esvaecido. Rodei sobre ela, para me colocar por trás e ficámos as duas de frente para o espelho do lava-mãos. Sussurrei-lhe para se dobrar um pouco e colocar as mãos sobre a mármore. Testei assim a tão aclamada obediência:

Desapertei-lhe os primeiros botões da blusa, até ao decote. Admirei cada detalhe por ela preparado para mim. Por baixo, vestia muito mais do que julgava ser um simples top: Um soutien transparente,  sob uma outra lingerie reduzida a tiras e ainda um cinto de ligas rendado e longo que cobria toda a cintura fina. Subi-lhe a saia no quadril, até ficar com as longas pernas expostas. Deliciei-me com as meias de ligas presas na longa renda pelo elegante ligueiro. Apesar de magra, como já sabia, as curvas foram deliciosamente saboreadas, primeiro com o olhar e depois com um ligeiro toque da minha mão. Senti a respiração dela acelerar e a inspirar mais profundo a cada afago até que decidi estalar a palma da mão com força na nádega empinada. Ela conteve um gemido e olhou-me no reflexo. Aproximei novamente a boca do ouvido dela e perguntei:
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- "É mesmo isto que queres? Agora podes responder."

- "Por favor, sim! És tudo aquilo que quero e que imaginei que fosses! Sou tua!" - Com estas simples palavras e a cupidez no olhar, contraí novamente o ventre. Desviei a asa delta rendada para o lado, sob uma virilha e senti-a. Ela estava quente e húmida. Agarrei-a pela nuca e num contorcer de pescoço beijei-a apaixonadamente.

Lembrei do tempo. Não podíamos ficar muito mais ali. Afastei-me um pouco e dei uma ultima ordem: - "Despe as cuecas!"- Assim o fez e sem levantar a cabeça ofereceu-me o pequeno tecido pela mão estendida. Coloquei-as no bolso do meu casaco a sorrir. Pedi-lhe para se recompor e saí, esperando-a na porta do café.

Quando começámos a subir a rua em paralelo antigo, disse-lhe que planeava mostrar-lhe um pouco a cidade mas agora estava com pouca vontade de o fazer. Ela depressa me interrompeu e disse que teria muito tempo depois ou noutra data, demonstrando também o pouco interesse nesses projectos. Ela queria e continuava a provocar a continuação do que tínhamos começado. Eu agia o mais naturalmente possível. Assim, quando chegámos ao fim da rua, no cruzamento, procurei a praça de táxis.


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